Há críticas de todos os lados ao Aloizio Mercadante, antes e após sua decisão de permanecer como líder da bancada do PT no Senado. Malham o senador como se malham os bonecos de Judas Iscariotes. Mas quem atira a primeira pedra?
Vamos aos fatos e uma das possíveis análises.
Fato: Lula pediu para ele ficar e o considera imprescindível nessa posição. Aqui a carta que o presidente enviou ao senador, após a reunião de ontem à noite, no Palácio do Planalto, em que Ricardo Berzoini, presidente do PT, estava presente. O início da missiva resume o todo:
“Ontem à noite tivemos uma longa e franca conversa, mais uma entre tantas nesses mais de 30 anos de companheirismo e amizade em comum. Você me expressou novamente, como tem feito publicamente, sua indignação com a situação do Senado Federal e suas duras críticas ao posicionamento da direção do PT nos processos no Conselho de Ética. Respeito sua posição e considero um direito legítimo você expressá-las para a militância do PT e para a sociedade. Bem como continuar lutando por uma reforma profunda no Senado.
Mas não posso concordar com sua renúncia da liderança da bancada do PT. Você tem todo apoio de nossos senadores e senadoras. A bancada e eu consideramos você, Mercadante, imprescindível para a liderança.”
Fato: Ricardo Berzoini, presidente do PT, também reafirma a posição de aplauso do partido ao “Fico” de Mercadante. site do PT.
Fato: Berzoini e Dirceu tinham cunhado Mercadante de infantil após o senador emitir uma nota em nome da bancada do PT no Senado, afirmando que Sarney deveria se afastar da presidência da casa.
Fato: Até José Dirceu, com quem Mercadante não tem lá grandes relações, pediu que o senador ficasse em sua posição.
Fato: Os próprios líderes da oposição respeitam Mercadante por sua habilidade e bom trânsito com todos no Senado.
Fato: Arthur Virgílio está junto com Sarney nessa. Os dois tiveram suas acusações encerradas no desmoralizado Conselho de Ética presidido por um patético suplente de suplente, o senador (sic) Paulo Duque do PMDB do RJ.
Brasília – Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao lado da primeira-dama Marisa Letícia e o do senador Aloizio Mercadante, em entrevista à imprensa. Foto: Wilson Dias/ABr
Análise: O Senador Mercadante foi, desde o início da crise que envolve José Sarney, favorável que o senador se afastasse da presidência do Senado para que o Conselho de Ética aceitasse e apurasse as acusações de desvios, nepotismos, anomalias e corrupção. Não mudou de opinião.
Mercadante é um homem do PT, é fundador do partido, amigo e fiel correligionário de Lula. Não quer dizer que não tenha suas próprias opiniões. E elas nem sempre são compartilhadas com Lula, Berzoini e José Dirceu. Dentre os quadros desse PT que todos querem pintar como uma “máfia” é um dos senadores mais respeitados, um nome que tem uma história. Ao lado de outros nomes como Suplicy, Marina Silva (agora sem partido) – e outros – compõem o time de “boa imagem” do Partido dos Trabalhadores para uma grande parcela de seu eleitorado. De certa forma é o time que ainda segura o conceito inicial de desejo de um partido diferenciado no sentido ético e moral.
Mercadante, como se pode observar, tanto na carta de Lula quanto nas suas afirmações, continua querendo mudar o Senado, não concorda que as acusações que pairam sobre José Sarney sejam engavetadas numa pizza indigesta para o país.
O PMDB de José Sarney foi também cooptado, no mesmo modelo de fisiologismo, pelos dois governos passados de Fernando Henrique Cardoso, do PSDB. Tal e qual. Esta é a grande questão, o modelo é que impele ao status quo canalha. É o modelo que precisa mudar. José Sarney atualmente é o ícone maior dessa situação que todos se enojam hoje, mas que não é de agora.
Quem quiser atirar a primeira pedra, tente antes apontar uma solução concreta para o modelo. Essa é a questão de fundo. Lidar com as dores da doença não resolve suas causas.
A culpa do PT é não ter se empenhado nesse caminho, se acomodado com as facilidades do status quo corrompido e a campanha do PSDB e DEM do ano que vem vai usar e abusar dos fatos, fotos e vídeos do outono inverno de 2009, como se sua aliança fosse a real porta estandarte da ética, da moral e dos bons costumes. E não são tanto assim. É só olharmos para o apoio que dão ao Eduardo Azeredo, a Yeda Crusius, ao Efraim Morais e outros semelhantes.
Oxalá Mercadante permaneça não só como líder da bancada do PT no Senado, como com sua mesma visão sobre as reais causas do problema todo, pois do contrário só podemos esperar mais do mesmo.