Corrupção divide o PT
O julgamento da Ação Penal 470, vulgarmente chamado de mensalão do PT, provoca as mais variadas reações da sociedade brasileira. No conjunto do Partido dos Trabalhadores, um aglomerado político diverso, não poderia ser diferente. A superfície visível não é, em absoluto, reflexo de todas as partes.
Recentes depoimentos colhidos com históricos líderes sindicais, decanos fundadores do partido, comprovam esta afirmação.
Ao observarmos o noticiário e a blogosfera política poderíamos deferir que o PT – como um todo – tem reação negativa com relação aos juízos que os ministros do Supremo Tribunal Federal têm proferido. Esta é uma visão superficial, incompleta e errônea.
O ministro Joaquim Barbosa tem sofrido insultos de toda natureza, inclusive racistas, por ter a dificílima tarefa de relatar o processo 470. As injúrias, calúnias e difamações acabam por se estender a todos ministros da corte suprema. A ponto de ameaçarem um dos três pilares que sustentam nossa infante democracia. Petistas – mais parecidos com torcedores dirigidos por consciências superiores às suas – usam e abusam desta prática de ofender o STF, alegando que os julgamentos até agora proferidos estão baseados somente em subjetividades. Da noite para o dia observamos o aparecimento de pseudo-doutores jurídicos que defendem teses e mais teses que sustentam que a suprema corte é dirigida pela oposição política e midiática do atual governo.
Ao aprofundarmos um pouco mais o entendimento de outros petistas – que hoje preferem não se pronunciar publicamente – a unicidade de opiniões se mostra uma inverdade colossal. Há muitos decanos do partido, desde ex-dirigentes, filiados e eleitores, que têm visão absolutamente diversa da superfície mais visível destas opiniões, que não representam o todo. O julgamento da ação penal 470 tem se mostrado um marco que pode se tornar divisório na base de sustentação do partido.
Estes grupos, que não comungam as opiniões mais visíveis e ofensivas ao STF, passam por uma situação complicada. Não sabem para onde ir. As opções que teriam, PSOL, PSTU – e quetais – não os agradam e a permanência no PT é uma dúvida. Ou um enorme desafio.
Assim como não há petistas, nem mesmo os mais dirigidos pelas opiniões da cúpula em julgamento, que defendem o “Silvinho Land Rover” que recebeu a cara caminhonete em troca de favores palacianos, estes grupos dissidentes das más práticas em julgamento, não conseguem mais apoiar incondicionalmente os petistas envolvidos no esquema do valerioduto.
De um dirigente ouve-se a seguinte expressão: “existe uma enorme diferença entre um malfeito malfeito e um malfeito bem feito”. De outro esta: “quero que todo mundo vá em cana, este não é mais o projeto ao qual dediquei toda minha vida sindical”. O tal “malfeito bem feito” do primeiro seriam eventuais desvios para caixa 2 de campanhas que ele sustentaria e defenderia. Os malfeitos malfeitos seriam não só os embolsos particulares como as eventuais compras de políticos para sustento do governo no Congresso. Até nestes grupos dissidentes temos divisão, ou seja, um primeiro que ainda defende o modelo corrupto para a “benfeitoria” do caixa 2 e um segundo que defende o modelo ainda mais limpo de fazer política, uma antiga – e abandonada pela cúpula – bandeira do partido.
A questão que se coloca é qual será o cenário político nacional depois de terminado o julgamento e proferida a dosimetria das penas. Em especial o que será do Partido dos Trabalhadores depois deste capítulo histórico que estamos vivenciando.
Vale nos lembrarmos que Eduardo Azeredo, ex-presidente do PSDB, “queridinho” político do tucanato nacional, foi o inventor deste modelo de desvios de dinheiro público e seu processo, hoje desmembrado, continua em compasso de espera, tanto na Justiça de Minas Gerais quanto no próprio STF. Quem hoje atira suas pedras no PT, recheados de munição nos argumentos dos juízos proferidos pelos eminentes ministros de nossa suprema corte, amanhã tende a recebê-las de volta em mais um ciclo comprobatório que a política brasileira precisa de um novo modelo de financiamento de suas campanhas e de uma nova jurisprudência sobre os crimes de corrupção agora em julgamento. Vale ressaltar que a grande mídia insiste em ocultar – ou minimizar a importância – esta pauta mais que pertinente, genética, ou seja, o mensalão tucano não tem a devida inserção na cobertura do conjunto de análises políticas deste momento.
O caminho que a cúpula do PT adotou, em especial os integrantes arrolados na Ação Penal 470 ora em julgamento, de atacar inicialmente a Procuradoria Geral da República e agora o Supremo Tribunal Federal, em especial o ministro Joaquim Barbosa, tem se mostrado uma tremenda canoa furada que divide o PT e coloca em questão o futuro do partido.
Aparte deste grupo encontramos a presidente Dilma tentando governar e tendo que se submeter não só ao seu principal sustento político, o partido que a elegeu, como aos caprichos dos partidos que compõem seu governo, desde o enorme bezerro PMDB até os partidecos de prateleira que continuam solicitando os dutos para saciar suas sedes pouco republicanas.
Na semana que entra teremos mais um importante capítulo do julgamento do mensalão petista. Que mais parece uma final de campeonato de futebol se observarmos as opiniões das militâncias políticas de todos os lados. Mas vale voltarmos ao tema do post, que é uma visão mais aprofundada da divisão interna do conjunto de correntes que compõe o PT. Este é o ponto. Nem todos simpatizantes estão incomodados com os rumos deste julgamento. Há uma boa parte que vê neste importante momento uma enorme oportunidade de resgatar o partido para seu antigo rumo, um partido de origem sindical, hoje social democrata, que defendia a bandeira da ética como prática apropriada de exercer o poder.
Nem todos os pardos são gatos e nem todos os gatos são pardos.
Atualização: este post levou quase 50 minutos para ser publicado pelos problemas com a Internet da Vivo, isto porque a Claro e a TIM nem são mais tentadas como provedoras. Não estaria na hora de uma Operação ANATEL da Polícia Federal que eventualmente desencadearia um processo que poderia chegar num Mensalão da ANATEL? Quem sabe logramos sucesso em eventuais crimes nesta área tão obscura que são as Agências Regulatórias brasileiras.